terça-feira, 9 de outubro de 2012

" Na necessidade de reacender o entusiasmo revolucionário, existe algo que se chama brio. Nós deixamos o brio decair totalmente. Ele adormeceu por completo, é preciso despertá-lo de uma vez. O brio tem de ser a força que impulsiona a massa a todo momento, e deve haver gente pensando constantemente na forma de avivá-lo. Não é tão difícil buscar uma forma, outra forma, de trazer as pessoas para a luta."               Ernesto Che Guevara


sábado, 15 de setembro de 2012

                                Queremos mais investimento e iniciativa do Poder Público! Cultura não é mercadoria!

domingo, 26 de agosto de 2012

UM PROGRAMA SOCIALISTA PRÓPRIO




“…a cultura popular, resultado das lutas e das dificuldades deste povo, foi se tornando a maior riqueza que hoje o Brasil tem para oferecer ao mundo.”
Aline Rodrigues, Candidata a Vereadora pelo PCdoB na cidade de Campinas, estado de São Paulo.
Reportagem a Aline Rodrigues por Carlos Anández

Aline Rodrigues, Candidata a Vereadora pelo PCdoB na cidade de Campinas, estado de São Paulo
Aline Rodrigues, Candidata a Vereadora pelo PCdoB na cidade de Campinas, estado de São Paulo


Que lugar ocupa o PCdoB no espectro político Brasileiro?
O PCdoB ocupa importantes espaços nos cenários políticos institucionais em nível municipal, estadual e nacional, tanto em governos quanto em conselhos, sindicatos e entidades diversas. Com muita dificuldade, a partir do fim da ditadura militar (1984), ampliamos o diálogo com diversos setores da sociedade e com outras correntes e partidos políticos progressistas. Construímos uma proposta de frente ampla a fim de derrotar o projeto neoliberal, que teve seu ápice na década de 1990 com a privatização de importantes empresas estatais, além do aprofundamento do sucateamento de alguns serviços públicos. Tal frente ampla acabou culminando na eleição do ex presidente Lula em 2002, sua reeleição em 2006 e na eleição de Dilma em 2010. Hoje ocupamos o ministério dos esportes no governo federal, temos 42 prefeituras e 26 vice prefeitos. Disputamos, nestas eleições municipais, majoritariamente 6 prefeituras de capitais.
De que forma a Senhora define o presente político no seu país, a luta pela conquista politica e quais são suas fundamentações politico-filosóficas?
Atualmente o Brasil tem aprofundado as políticas sociais de “reparação” das desigualdades históricas, através de programas educacionais, assistenciais, políticas públicas de gênero, entre outras medidas. Ampliamos as perspectivas de qualidade de vida da população, este fator reflete na melhora dos índices econômicos, já que a população consome mais e estuda mais. Isto também tem outras consequências econômicas, já que com índices sociais melhores, o país acaba se tornando também mais atraente aos investimentos externos. Politicamente, o saldo é positivo aos setores mais à esquerda, porém, as contradições tanto no seio da sociedade quanto no âmbito governamental se tornam mais evidentes. O clima de disputa de opiniões é constante, pois para conquistar e se manter no poder a esquerda tem que encarar coligações e acordos com amplos setores políticos, que têm interesses diversos. É no plano destas contradições de projetos políticos que se dá a atuação dos comunistas hoje no Brasil. Quanto às minhas fundamentações político filosóficas, sou militante do PCdoB há 13 anos, portanto, defendo o marxismo Leninismo como tática e estratégia para a conquista da hegemonia política do projeto socialista. Somos o único partido hoje no Brasil com um programa socialista próprio, baseado em nossa própria realidade brasileira e não importado de outro país ou de outra época. Neste programa defendemos os passos necessários e os grandes desafios na execução deste projeto.
Considerando-se que o Brasil inclui na sua historia uma importante bagagem cultural: Que lugar a senhora designa à cultura na sociedade brasileira?
A formação do povo brasileiro é o resultado da soma de povos diversos, com seus estilos de vida, suas sabedorias populares, suas dificuldades e histórias. A partir do convívio e também de atritos entre as diferentes etnias, formamos hoje um povo uno, no sentido de termos uma identidade comum. A maior parte do povo brasileiro esteve durante 5 séculos muito distante da escola, tendo sido a grande maioria analfabeta ou semi alfabetizada. Porém a cultura popular, resultado das lutas e das dificuldades deste povo, foi se tornando a maior riqueza que hoje o Brasil tem para oferecer ao mundo. A capoeira, por exemplo, foi resultado da luta física, do treinamento dos escravos a fim de fugir para os quilombos (comunidades independentes de resistência de escravos fugidos e outras etnias), que para treinarem uma luta baseada em artes marciais precisavam “fingir” que estavam dançando. As festas populares que têm uma proposta inicial religiosa, mas que se misturaram a propostas mais pagãs, como o carnaval, as festas juninas, o boi bumbá, entre outras, expressam sabedoria popular e alegria. Isso só para citar alguns exemplos. Considero que existe muito preconceito hoje em relação a tais manifestações e às relações entre a cultura popular e a cultura acadêmica que tem muita influência das elites dominantes, predominantemente identificável como europeia ou estadunidense. Além disso, a grande mídia, ligada a interesses econômicos das oligarquias, como em todo país capitalista, acaba tratando a cultura popular de maneira massificada, se apropriando de seus sentidos, deturpando-os e construindo a chamada cultura de massa, que portanto, não é sinônimo de cultura popular. Por exemplo, o carnaval de Salvador e os desfiles de Escolas de Samba do Rio de Janeiro eram no início propostas populares e democráticas de ocupação do espaço público com cultura popular, acabaram se tornando eventos altamente massificados e comerciais, onde quem não tem dinheiro é privado de participar. Apesar destas apropriações indevidas dos sentidos das manifestações populares, os eventos mais tradicionais são muito bem vivenciados em cada localidade, se renovando sempre, não tendo sido ainda absorvidos pela cultura de massa.

...Também é necessário ampliar a participação da juventude e de toda a sociedade em espaços democráticos, inclusive fomentando a cultura popular e democratizando os meios de comunicação, além da reforma agrária, urbana e tributária (Foto de  Tatiana Ribeiro)
...Também é necessário ampliar a participação da juventude e de toda a sociedade em espaços democráticos, inclusive fomentando a cultura popular e democratizando os meios de comunicação, além da reforma agrária, urbana e tributária (Foto de Tatiana Ribeiro)


Que eventos culturais reconhece propícios para a formação de uma consciência política e como a senhora define cultura popular?
Reconheço as manifestações que refletem nossas origens e a ancestralidade como propícias para a formação de uma consciência política, já que temos muita dificuldade de nos reconhecer como negros ou indígenas em especial, e também existe muito preconceito em relação à regionalidade. Quando assumimos com canto, musicalidade e com a própria expressão corporal, nos gestos e nos costumes, seja em apresentações e rituais, seja no próprio cotidiano que esta ancestralidade tem valor e que construímos nossas identidades a partir deste reconhecimento passamos a não ter vergonha do que somos, elevamos nossa auto estima, que é o primeiro passo para vislumbrarmos nosso papel e a posição que temos ou deveríamos ter na sociedade. Portanto creio que a política não está desconectada da situação psíquica, já que o inconsciente coletivo é constituinte de condições iniciais de ruptura ou de reafirmação de valores, que em consequência, se expressam através de posturas políticas críticas ou não. Vejo também na arte de vanguarda uma tendência à quebra de paradigmas estabelecidos, levando muitas vezes a reflexões importantes. Porém é necessário ainda muito fomento e muito estímulo através de políticas públicas para que todo o tipo de cultura popular se dissemine e cumpra melhor seu papel.
Considerando-se a origem étnica da população: A Senhora acredita que o Brasil possui um património folclórico próprio ou há sido poluído pela influência colonizadora?
Como somos um povo que se formou através de lutas e negociações, além de conciliações tanto entre classes quanto entre etnias diferentes, as duas hipóteses colocadas convivem. A visão antropofágica, por exemplo, criada por Oswald Andrade e muito difundida a partir da Semana de Arte Moderna em 1922, se baseia na ideia de que assim como os índios antropófagos, que num contexo ritual , necessitam comer partes do corpo de seu opositor derrotado numa disputa, para delas extrair benefícios, o nosso povo também enfrenta o colonizador ou o dominador simbolicamente, porém incorporando o que aquela outra cultura lhe oferece objetivamente. No entanto, tal incorporação simbólica nunca se dá de maneira neutra ou simplesmente copiando-se esta outra cultura, e sim a partir de uma “digestão” da outra cultura que é incorporada de fato, produzindo-se, como resultado desta digestão, uma outra coisa, que não é mais a cultura do colonizador, mas sempre uma novidade. A proposta antropofágica, é a que melhor resume minha posição sobre o assunto.
A Senhora acha que os brasileiros atualmente são mais cultos? Possui o Brasil um elevado analfabetismo?
O analfabetismo vem se reduzindo no Brasil ao longo dos anos através de políticas públicas e da universalização da educação básica, processo que vem ocorrendo a partir dos anos 1980. Porém, nosso principal desafio hoje é a melhoria da qualidade da educação, que se encontra na posição 88 no ranking da UNESCO. A quantidade de crianças e jovens estudando é maior, porém a falta de condições adequadas ao desenvolvimento intelectual não é nada satisfatório. Existem 9,6% de analfabetos atualmente no país. No entanto este índice não inclui o analfabetismo funcional, ou seja, estão excluídos desta estatística cidadãos que saibam no mínimo assinar o próprio nome.
Se o nível cultural, neste caso da educação tem se padronizado: É possível que a maior parte da população viva na indigência? Porquê – se a Senhora acha que não é assim– o Estado Brasileiro não combate firmemente a pobreza?
A indigência é o ponto negativo mais atacado pelo governo brasileiro atualmente. Na verdade, a desigualdade em geral tem se reduzido drasticamente nos últimos 12 anos. O fato de esta redução ter sido resultado de políticas públicas e do aumento de postos de trabalho é muito ignorado pela grande mídia, que no Brasil é extremamente monopolizada. Na verdade, o desenho da pirâmide social no Brasil se inverteu de 10 anos para cá entre a base e a metade, sou seja, muitos indigentes foram incorporados ao trabalho ou a programas assistenciais (de transferência de renda), produzindo uma redução na base deste desenho e ampliando o segundo “degrau” da pirâmide. Nunca na história do Brasil houve tanta distribuição de renda. Porém, a classe do topo da pirâmide também tem enriquecido muito por motivos que são ignorados até por especialistas. Imagino, que entender as causas da desigualdade passa pela compreensão da lógica de acumulação de riqueza no topo da pirâmide também, já que os milionários no Brasil são isentos de muitos impostos, além de outros privilégios sociais. O governo, inclusive, não consegue controlar ao certo a renda destes indivíduos.
É a pobreza a causa da delinquência ou a delinquência é o produto de um regime ancorado no capitalismo competitivo?
Na minha opinião o capitalismo competitivo causa várias enfermidades coletivas, pelo fato de seus pressupostos colocarem alguns indivíduos contra outros, gerando assim, violência, falta de perspectiva em assuntos comunitários, isolamento dos indivíduos, super valorização de padrões de beleza e estilos de vida, já que as grandes marcas necessitam impor seus produtos que têm uma produção padronizada. Também há uma inversão de valores em relação à educação e à cultura. A educação é predominantemente identificada como treinamento para o trabalho, e não como uma ferramenta para a libertação do cidadão, enquanto a cultura é vista como entretenimento comerciável. Neste contexto, os comportamentos tidos como adequados são os mais alienados vistos a partir de uma perspectiva mais crítica. Os comportamentos e situações que fogem destes padrões são facilmente conduzidos à marginalização e à exclusão social, contribuindo assim para o aumento da delinquência.

...ao mesmo tempo que o capitalismo inseriu seus tentáculos no Brasil, ele também os inseriu na América Latina como um todo (Foto de Guilherme Galembeck)
...ao mesmo tempo que o capitalismo inseriu seus tentáculos no Brasil, ele também os inseriu na América Latina como um todo (Foto de Guilherme Galembeck)


O Brasil é a oitava potência do mundo?
Do ponto de vista do capitalismo atualmente somos a sexta. Inclusive muitos estrangeiros têm imigrado ao Brasil em busca de trabalho, buscando perspectiva social e estabilidade financeira. Este é um ponto positivo, porém não significa que esta riqueza tenha deixado de estar concentrada nas mãos de uma parcela pífia da população. Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas) de 2010, 10 dos 15 países com maior concentração de renda do planeta estão na América Latina e Caribe, tendo a situação brasileira melhorado muito recentemente, fazendo-nos ocupar a terceira posição mundial em desigualdade. O mesmo estudo da ONU também mostra que ser mulher indígena ou negra nesta mesma região é sinônimo de privação, ou seja, nossa pobreza tem cor e gênero, além da determinação de classe social. Penso que atualmente esta concentração de riqueza extremada é nosso principal entrave ao desenvolvimento.
Se a Senhora assim achar: O que o Estado não tem feito pela população e o que tem feito com êxito?
O Estado tem distribuído renda através de programas assistenciais, educacionais, etc. Também tem ampliado o diálogo com setores da sociedade que antes não eram sequer consultados. Alguns municípios que antes nem energia elétrica tinham estão se desenvolvendo. O Estado tem tido posturas muito tímidas em relação às reformas que interferem de forma mais direita nos interesses das oligarquias (tanto nacionais quanto internacionais), como por exemplo a reforma agrária, a reforma urbana, a regulação dos meios de comunicação e a reforma tributária, já que no Brasil, como já mencionei acima, os milionários quase não têm despesas com impostos, enquanto a população com renda mais baixa chega a gastar 45 reais em impostos a cada 100 reais gastos com comida, por exemplo.
Alguns afirmam que o Capitalismo –desde os anos sessenta– tentou inserir seus tentáculos no Brasil e transformar sua economia em uma espécie de sub-imperio da mão das corporações. Também tem se dito que seu país qualifica na categoria de potência económica graças à gestão de um operário metalúrgico de nome Ignacio “Lula” Da Silva: Têm fundamentos políticos estas afirmações anteriores ou simplesmente são desqualificativos para um país que cresce economicamente?
Na verdade, ao mesmo tempo que o capitalismo inseriu seus tentáculos no Brasil, ele também os inseriu na América Latina como um todo, estando o Brasil dentro de um processo continental, de ditaduras militares financiadas e apoiadas pelo governo estadunidense. A partir da década mencionada se iniciou um processo de endividamento do Estado com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que por sinal é gerido pelas maiores corporações mundiais. Tal dívida foi firmada em troca de um desenvolvimento industrial dependente e subalterno economicamente, o que acabou gerando, como resultado, enorme prejuízo social, pois o Estado brasileiro, até a começo década de 2000 gastava mais com a amortização dos juros da dívida do que com investimentos em áreas sociais. Lula, em 2005 saldou todos os juros referentes a tal dívida externa, e atualmente resta menos da metade da dívida. Hoje o governo brasileiro é um dos gestores do FMI, inclusive na atual crise nas antigas potências econômicas mundiais, o FMI utilizou recursos advindos do Estado brasileiro para “salvar” temporariamente economias europeias e auxiliar na reconstrução do Haiti. Com certeza a ordem econômica mundial está mudando drasticamente e muito rapidamente. O Brasil hoje é chefe do BRICS (bloco econômico formado por Brasil, Índia, China e África do Sul), que objetivamente diminui a influência do capital estadunidense. No campo político, a posição deste bloco em relação ao Irã e outros conflitos tem divergido das iniciativas propostas pelos EUA e seus aliados, portanto creio que por toda esta conjuntura a hipótese de subimpério estaria descartada. O que não exime o Brasil de estar hoje participando de decisões econômicas e políticas que orientam toda a economia mundial.
O governo Lula, como já disse anteriormente, conduziu políticas sociais muito importantes, porém, quem tem enfrentado mais decididamente as corporações financeiras é Dilma Roussef, inclusive, impondo medidas de redução drástica de juros aos bancos.
Como combina crescimento macro-econômico com distribuição do ingresso? É realmente afim à população tal crescimento ou nas categorias micro-econômicas o Brasil não está muito bem?
Como já havia destacado, nos desenvolvemos muito na última década, tanto socialmente quanto economicamente, inclusive, foi através de políticas públicas que grande parte da população emergiu socialmente neste tempo. Este foi um fator de grande impulso na melhora da macro economia, pois o mercado interno se dinamizou, se tornando atraente a investimentos externos também. Além disso, as relações externas estabelecidas com outros países, incluindo a formação do Mercosul e do BRICS, foi um grande estimulador econômico para o país e vice-versa. Precisamos ainda, desenvolver mais e melhores políticas públicas voltadas aos jovens estudantes e trabalhadores e mulheres, reparar desigualdades históricas entre etnias, investir mais em educação além de melhorar os programas e planos educacionais, e distribuir renda a fim de combater a pobreza. Também é necessário ampliar a participação da juventude e de toda a sociedade em espaços democráticos, inclusive fomentando a cultura popular e democratizando os meios de comunicação, além da reforma agrária, urbana e tributária, ou seja, há muito trabalho pela frente para que o Brasil seja de fato um país rico.
Se a Senhora fosse eleita vereadora: Qual é sua proposta?
Lutar por programas assistenciais e profissionalização para as jovens mães, além de programas eficientes de orientação sexual nas escolas, melhores condições de transporte para a periferia da cidade, com transporte público 24 horas, internet livre e gratuita, melhores condições de trabalho, plano de carreira e salário digno para o profissional da educação, creches em período integral para que jovens mães e pais possam trabalhar e também se desenvolver.
Nota: Próximamente se publicará en español
http://baupres-mag.com/2012/08/um-programa-socialista-proprio/#.UByF8d8_CCE.facebook